Me lembro, meu amigo, quando garotos brincávamos de bolinhas de gude, e você, canhoto, ganhava, quase sempre, todas as nossas, e quando um garoto qualquer chorava, você as devolvia, aborrecido, mas devolvia.
Implicávamos com o fato de você ser canhoto, e dizíamos que Deus não gostava dos canhotos. Lembro-me bem que um dia você, ao retornarmos para casa, éramos vizinhos, me perguntou se aquilo era verdade, que Deus não gostava dos canhotos. Eu, depois de pensar um pouco, lhe falei que ia ver isso com minha mãe e você ficou todo esperançoso. Tínhamos uma diferença de 3 anos de idade, sendo eu o mais velho.
No dia seguinte lhe falei que minha mãe dissera que era mentira, que Deus gostava de todos e talvez até mais dos canhotos, você ficou todo feliz e encantado.
Na verdade eu inventara aquilo, nunca perguntei isso à minha mãe.
Lembro-me bem que aos nove anos se meteu numa briga com um nosso colega comum, este até um pouco maior que a gente, e, incrivelmente, o deixou com o nariz sangrando e saindo, sim, também com alguns arranhões pelo corpo. A coisa se dera pelo fato de que o Brito (este era o nome do nosso colega) tomara uma parte do lanche de um nosso colega menor; lanche esse que era servido naquelas tigelinhas de plásticos azuis, normalmente um arroz doce meio azulado.
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