segunda-feira, 6 de junho de 2011

Brincar de Drummondiar


( ou poema de meia alface )


Quando nasci um anjo bêbado
desses que bebem bem cedo
chegou e me disse: cara,
chega lá e escancara
não importa o preço da cana
que importa a sanha insana
com que muitos se atiram
à caça de ninharias.

Esse anjo estava "alto"
e chegou já soluçando
gostei do cara no ato
achei o maior barato...

E o anjo tinha uma capanga
e nela tinha de tudo
tabaco, torresmo, mé
rapadura com farinha
tinha DVD pirata
latinha de marmelada
tinha até meia furada
cachimbo, pente, rapé...

E o anjo se aboletou
numa cadeira quebrada
me dizendo meio grogue
quando tu ficar de porre
não ligue para a farofa
enfrente qualquer parada
estarei contigo e inté!

O anjo ao sair da sala
onde 'tava a manjedoura
tropeçou numa vassoura
deu com a testa no batente
mas disse: Adeus minha gente
depois a gente se fala!!!

E com passar do tempo
vi que o anjo tinha razão
pois eu vi que os "irmão"
vinham careca e banguela
nos olhos tinham remela
mas tinham bom coração.
Eu alí fiquei pensando
assim meio encabulado
e quando olhei para o lado
lá estava um carotinho
e um "biête" que dizia:
não bulam nesta branquinha
ela é para o mineirinho
lá do norte do Estado.

Eu dei logo uma tragada
a bicha desceu queimando
"figo" véi estrebuchando
mas num vomitei nem nada.
Preparei um tira-gosto
com uma asa de galinha
malagueta com farinha
nem quis saber de almôço
fiquei alí matutando
eu não sei como é que pode
eu ser assim tão sortudo
logo eu um cabeçudo
mas eu num rezei nem nada...

Mundo véio foi rodando
nas patas do pangaré
fui adquirindo fé
nas coincidências da vida
vieram os contratempos
já dormi muito ao relento
uma dona me deu rebentos
e à alegria dei guarida!

Dia desses: Deus, obrigado!
por este bom camarada
que me ensinou que no mundo
estamos numa jangada
e que o rio é muito fundo
que choramingar é nada
tem que é dar muita braçada...
bote umas duas na cabeça
das desilusões esqueça
faz por onde tu mereça
arrume uma namorada,
uma moleca faceira
faz o vivente gemer
faz o bruto estremeçer
bispo plantar bananeira
ricaço dormir na esteira,
viver sem eira nem beira
às vezes, fazer besteira,
certo é "mió" viver.

Cai logo na capoeira
não deixa cair o pano!
sem temer os desenganos
Construa sua jornada!



(Aos meus velhos companheiros de estrada & de copo...)


Oz
14.05.2010

sexta-feira, 3 de junho de 2011

No parapeito

Há alguém de pé no parapeito
alguém que talvez tenha o coração desfeito
que talvez esteja à espera de uma mão.

Ao redor, seres cambaleantes
produzindo melodias dissonantes
pisoteando o arbusto da razão.

Há alguém à beira de um abismo
alguém à espera de um sorriso
alguém que está fitando a escuridão.

Alguém está numa espiral de medo
alguém cuja existência é um segredo
no parapeito um pedido de atenção.



Oz
06.05.2011

( neste mesmo instante, quantos estarão no parapeito desse nostro mondo ? ... )

Canção triste para Etzel



Na sua busca incessante, Etzel se tornou a sombra e a luz, o vendaval e a calmaria, o labirinto do sono e a chave do longo despertar.

Seu olhar, um farol na noite incipiente.

Ele usa a sua mente afiada para rasgar a cortina que se instalou entre a sua fome primária e o seu alimento de pedra.

Semeador,dos seus lábios, por vezes, brotam frutos pantanosos.

Seus olhos se enchem de lágrimas mas ele avança com seus sapatos de aço, o retinir dos tacões a incomodar os ouvidos insensíveis de um mundo espectral.

O seu coração é árvore & animal & imensidão.

Oh, Etzel! Quão triste é o seu caminho, pesado o seu fardo e infrutífera a sua busca.

Etzel ruma ao desconhecido do homem e talvez não saiba que o seu destino já foi traçado pelo oráculo do vinho.

Ele percorre os muros de pedra da cidadela e na grama úmida onde pisa se desenha o lamento de um louco.

Ele busca na penumbra dos seus dias insones o bálsamo para um mundo ferido.


( Enquanto isso, Têmis permanece adormecida no coração do labirinto...).



Oz
08.05.2010

das cores dos dias

A quem interessar possa, após uma conversa com o velho Germano, ( lembra Durelli ? ) descobri as cores dos dias da semana. Aí vai:
Segunda: cinzenta, branca
Terça: amarela
Quarta: marrom
Quinta: verde
Sexta: cor-de-rosa
Sábado: azul
Domingo: dourado

ainda segundo ele, na Espanha há Domingos vermelhos...


Oz

Diagnóstico

O ato que exorciza a dor crua, cortante
é balançar com um blues endiabrado
é amar, desesperado, a bailarina azul
e abraçá-la de olhos fechados...
sentir seu corpo frio ou flamejante
nos lábios quentes e
desnorteados...

Oz

Cantiga para a moça desconhecida

Ante os meus olhos
um corpo singra
um mar de abrolhos

Sob os meus dedos
uma pele oculta
tantos segredos

Se o tempo é quando
minha mente aceita
um armistício

Se NÃO é o verbo
meu corpo cede
ao precipício

Se um corpo cálido
faz-se moldura
de um outro quadro

num movimento
sinto a tortura
&
no entanto aguardo.



Oz
03.06.2011 11:16 hs

( È bom lembrar que " paus e pedras podem ferir mas as palavras podem causar danos irreversíveis..." )

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Divagações à respeito de Sofia.


Sofia me fez voltar à superfície. Devo-lhe o regresso a este mundo gris e eterno e ainda que eu acredite em acaso algo me diz que os meus antípodas assim o quiseram.
Sofia existe apenas na minha imaginação de predador de sonhos e, mesmo assim, construo-a cotidianamente com os meus pensares tortos e os meus pincéis atômicos.
Sei-a estranhamente lúcida num universo envolto em sombras e setas e cálices e, por um mísero instante, tenho a ilusão de ter capturado o segredo da tua existência ímpar.
Ah, Sofia, estivesse eu à sombra dos teus cabelos revoltos, suave tempestade num ponto incerto do oceâno Atlântico, ilha formada de corais e habitada por amazonas em flôr...
Quisera eu vislumbrar os teus arcanos, constelações formadas de fulgurantes pássaros azuis...há uma paisagem em ti e nela se percebe toda a verdade e toda a beleza da lenda, rósea carne e inquieto espírito e surgem sensações a mim pouco conhecidas e que ainda não ouso nominar.

Leve é o teu passo!
Onírica a tua lembrança!
Difícil o saber, o sabor da tua história!

Em algum lugar, Sofia, num tempo muito distante alguém disse: " Sou feito da mesma matéria de que são feitos os sonhos " , sou tentado a imaginar que talvez tal afirmação talvez se aplique a ti pois existes porque alguém a sonha e quando este alguém acorda só pode sentir que tu eras apenas parte de uma qrande fantasia noturna, mesmo assim este alguém insiste em fechar os olhos pois não mais consegue respirar sem a tua alucinante presença diáfana nesta noite ilusória que permeia perenemente o real, a vida e o sonho. (...)


Ozênio
01.06.2011 00:27 hs