quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

pequena canção do espelho





Naquele espelho busco
a minha silhueta
embora eu não espere
encontrar tal faceta.
Naquele espelho vejo
alguém que me acena
embora eu não consiga
vencer o meu dilema.
Naquele espelho sinto
a sombra do absurdo
e ela é o açoite
o meu brasão noturno.
Naquele espelho ouço
ruídos fantasmais
espelho-calabouço
metades desiguais.
Naquele espelho jaz
a imagem da razão
o mais recente tema
mordaz de uma canção.

Meu insano dilema
é uma faca afiada
e já não há mais nada
cavalos, rios, poemas.

Oz
10.12.2011

Rascunho nos escombros



Vejo tua face pacífica e adentro mansamente as paragens da tua beatitude.
(...)
O teu olhar pousado nos umbrais do outono.
os teus arcanos sob a face do lago sagrado.

Sei-a filha dileta da memória e do sonho, habitante da tenda do imaginário.
O teu corpo mirífico invade as fronteiras insones e luxuriantes da minha lembrança e estremeço ante o cálido contato dos teus seios nus.

Sinto a santidade inviolável da tua existência ímpar.

Verdade é afirmar que o teu hálito umedece os lábios ressequidos do homem.


Oz
28 de Abril de 2010

"_Não. Aúnica coisa a fazer é tocar um tango argentino."

Manuel Bandeira.

Quadro

Envolto em hera
coração & muro num quintal baldio
um templo em ruínas entre o silêncio e o frio
em meio à solidão reinante espera...

Oz

Narciso

Se quer de mim
mais que um pseudo-riso
desista!
Eu sou Narciso.

Oz

Escalpos

corpos sápidos
escalpos no cinturão do tempo
exalam o odor de campos de batalha
e trazem em si
moinhos de ventos
cervantes
e toques de mortalha.


Oz.

sábado, 10 de dezembro de 2011

De um sonho Dantesco

Na penumbra de garagens, em gabinetes assépticos, em lugares insuspeitos, CORRUPÇÃO. S.F. conceito abstrato, se metamorfoseava então num gigantesco inseto que atordoava, degenerava e aniquilava a todos. Com seus inúmeros tentáculos alcançava os mais diversos pontos da teia social, e corroía, envenenava, maculava tudo ao redor.

De difícil combate, seus modos sorrateiros o auxiliavam a passar despercebido, às vezes sob a aparência de um inocente gafanhoto azul.

Gigantesco inseto onívoro. Sutilmente adentrava o cotidiano de todos e sua presença nefasta feria de morte os sonhos infantes de tantos berçários.

E então, entre nós, o invisível, o onipresente, o imensurável inseto, com seus tons camaleônicos e traços levemente Kafkianos. Sua sombra disforme projetada sobre nossas amendrontadas consciências. Víamos, impotentes, nosso cotidiano se transformando num pântano miasmático e nele viscejando a peste multiforme.

Queríamos acordar sem nos depararmos com tal monstruosidade no espelho do quarto mas...Já não era mais possível saber se estávamos despertos ou se o que vivíamos era um sonho dantesco.


P.S. E, para o nosso completo desespero, as instituições da República se tornaram a meta comum a todos os Lucius Antonius Rufus Appius que por aqui pululam...


Oz

Alguem chamando longe...

No fundo as músicas são chamas ardentes
queimando lentamente a distância dos anos
e lavam as pupilas dos olhos; uma torrente
de sonhos flamejantes, de vestígios de antanho.

Mais que o desejo de estar viajando
nas ondas dos sons, na trilha da explosão,
È uma ordem transcendente: continuem buscando
penetrem as portas da percepção.

Ei, você! aproxime-se, venha ver de perto
a fonte doar a vida, jorrar o despertar
ver surgir corpos sãs e mentes radiantes

Venha! vamos semear oásis no deserto
abrace o seu irmão, o ajude a caminhar
a ponte está próxima e a vida é um instante.

Oz
10 de Novembro de 1991

medos e certezas

A morte imune às incertezas levita suave na tarde leve.

Inatingível na insipidez a morte encanta em sua nudez.
A morte, em marte, como exilá-la ?!

Oh, morte, amar-te ?
como é possível sem desnudá-la...

Na tarde rósea, em sutil cambraia, aos transeuntes, a morte acena, a morte espaira...

Que a morte espere...
e o mito envolva a este servo que a busca, incerto, e a ti devolva todos os medos
e as certezas.


Oz
Janeiro de 2000

sábado, 26 de novembro de 2011

O universo habita em ti

Com atenção você verá que falta algo ao redor
com atenção você terá essa impressão
e se parar para pensar em tudo o que aconteceu
você verá que houve alguém que se lembrou e esqueceu
porque assim achou melhor...

Se os teus sonhos se tornaram um labirinto de ilusões
e as tuas palavras se perderam no vazio
é necessário se armar de catapultas e canções
e é impossível se banhar uma outra vez no mesmo rio.

Com atenção você verá que o caminhar é sempre só
e o horizonte é o teu espelho delirante
com atenção você verá que neste instante
o universo habita em ti e ao teu redor.

Se a tua estrela não brilhou o quanto quis
e os teus desejos definharam sob um véu de escuridão
se os teus passos e o teu destino se tornaram colisão
ainda assim será preciso se lembrar de estar feliz.

Oz

( Um dia de Abril de 2010 )

Mais fragmentos

(... meus trinta verbos soltos
nesta paisagem gris
farão do calabouço
um novo chão de giz,
e deste chão surgindo
paredes de verniz,
de Joana, a meretriz,
a nova imperatriz.
Do ser aprisionado
um novo ser alado,
da sombra do carrasco
um zéfiro de março.
...)

Oz
2006

visto de uma ventana abierta

Um velho trem se afasta lenta e barulhentamente da estação. Um garoto que veste uma túnica puída acena para uma janela de vidraças quebradas.

Um homem segue vagarosamente por entre os trilhos, coberto de fuligem. seus olhos opacos, suas mãos trêmulas, seus cabelos revoltos.

Aqui e ali, vestígios da implacabilidade do tempo.

Uma mulher canta uma canção de ninar enquanto colhe flores de cravo silvestre na beira de um barranco e as coloca num cesto de palha.
Um cavalo esquelético pasta num cercado de arame e é fustigado por um milhão de moscas zumbinantes.
Um cão derruba latões de lixo à cata de alimentos.
Pétreo é o sentimento quando na lembrança ressurge a figura bêbada do pai.

Oz

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Sentença

Caminho ao teu lado
sinistro, invisível
a ti aprisionado.

Espero a chave incerta
o atalho inesperado
espero ouvir meu nome.

Teu corpo desnudado
paira na tarde gris
teu templo proibido.

O meu olhar que quis
pousado nos umbrais
perdido, desnorteado.

Ah! mente que conduz
nos seus vastos impérios
tanto desejo e dor.

Oh! corpo andaluz
de sonhos deletérios
faminto de ar e luz.

2

Persisto ao teu lado
num sótão esquecido
o irmão aprisionado.

Espero a chave incerta
o sol na pele insone
espero ouvir meu nome.

Além, num antigo aquário
um corpo solitário
espera por alguém
e a dança cega e surda
moldura a sombra muda
enlaça a mim também.

Reescreva o teu passado
reabra os teus arquivos
abraçe qualquer crença.

Esteja ao meu lado
esquece o tempo. Vive.
Viver é a sentença.


Oz
Janeiro de 2000

Vagando na noite



1

Na noite fria habita a solidão coletiva. No colo estéril de cimento e aço fenecem os sonhos de mudos indivíduos. Sob marquises metálicas, orfãos ensaiam rituais de êxtase e caos e nos seus olhares opacos relampeja a sombra da loucura.
Herdeiros insensíveis de um medo inenarrável, os transeuntes exercitam a sua cegueira cotidiana.
Inexorável, o destino, pássaro de sete asas, prenuncia com os seus gorjeios uma sinistra primavera aos habitantes da cidade enfurecida.
Na noite fria o senhor da fonte fez recuar as sentinelas das torres da bondade e da misericórdia.
Na noite fria florescem nos trigais espigas cáusticas e sombras taciturnas fazem a colheita corrompida.
2

Uma tempestade se anuncia no horizonte plúmbeo. Um sonho deletério habita o sonho do cobrador de tributos.
Cadàveres putrefatos no fosso que circunda a muralha da fortaleza abandonadda.
Cães famélicos rondam o acampamento.

Um ancião murmura uma oração ao crepúsculo mas todos parecem entorpecidos. Um vento quente faz estremecer as tendas em frangalhos.
Na madrugada tempestuosa um cavaleiro envolto em escuridão e raios atravessa o vale num galope célere e o silêncio permanece adormecido no acampamento.
Na muralha, inscrições riscadas à faca. No solo, respingos de sangue.
Uma mulher soluça enquanto nina uma criança morta.



Oz

Canção para Clarice




Há uma mulher chamada Clarice. Ela irradia o enigma de velhas catedrais. Ela traz consigo vestígios da terra onde pousou o relâmpago. Ela atravessou florestas cerúleas e pântanos miasmáticos.
Clarice adormece sob um celeiro abandonado e, em seus sonhos, cavalga num campo de trigo, percorre pradarias explêndidas e desabitadas. Ao amanhecer Clarice estremece suavemente sob os fios de luz que penetram pelas frestas.

De quando em quando pastores atravessam a planície e ouve-se à distância o balido das ovelhas.
Na primavera Clarice deposita flores amarelas na tumba dos esquecidos e mercenários rondam os arredores da aldeia abandonada.

Clarice, no seu silêncio, é uma enseada oculta na memória.

Observo-a à distância e o meu coração pulsa descompassado.

Quero tomá-la nos braços, capturá-la, mas permaneço quieto, paralisado ante a sua quietude magistral e hipnotizante.
Herdeira de lendas imemoriais, Clarice traz consigo as dores e os sonhos de sete gerações.
Suas mãos diáfanas direcionam o vento, fazem frutificar as árvores e suavizam a tempestade mas Clarice quer dormir um sono eterno.



Oz
Abril de 2010

( Texto escrito para uma moça de um riso tímido..)

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Lembrares...

Alguém disse que somos o amálgama de todas as pessoas com quem nos deparamos e convivemos ao longo da vida. Lembro-me disso e sinto-me às vezes meio confuso ante o ser que vejo em mim. Acho que, apesar de tudo, falhei em tantos pontos que penso que, de modo deliberado, sempre optei por trilhar veredas desaconselháveis...
Não soube absorver aquilo que tanto admirava e admiro em tantos com quem tive a sorte de caminhar até agora.. no máximo, apropriei-me daquilo que definitivamente não me era dado pertencer.

(...)

Lembro de Alan, um jovem baiano de mente inquieta e ágil, um destruidor de ídolos ( por mais que tal imagem possa parecer gasta), o cara parece carregar consigo o fêmur do animal com o qual alguém antes dele combateu enlouquecidamente em outros tempos. Porém agora o combate travado pelo jovem professor nietzschiano é por uma causa bem diversa.

Lembro do Valério M. Cayres (Téti), dileto amigo de fins de adolescência, um molecão que com a sua simpatia e espontaneidade logo conquistava a todos, indistintamente, alguém que todos queriam ter na equipe, fosse qual fosse a disputa. O tempo , o tempo afastou este e tantos outros de mim e de tantos outros e a quem a mão inexorável do destino fez sofrer uma grande perda.

Lembro do Durelli e no pragmatismo silencioso dos seus atos, na sua figura apolínea, na sua humanidade calculada, sei-o amigo e farol para muitas das minhas ações cotidianas. Mantendo-se distante como tem feito talvez evite que diminua a chama de uma amizade que agradeço aos céus...

Há alguns anos alquém disse que eu era por demais melodramático, na época achei aquilo uma afronta e reagi abruptamente. Hoje penso que o colega talvez tivesse razão. Tenho mesmo uma espécie de queda, uma predisposição ao melodrama, seja isto que diabo for..
Assistindo a filmes de cowboy, pateticamente sigo cavalo e cavaleiro rumo ao destino frio e inescapável, torccendo as mãos e as rédeas do cavalo mesmo sabendo ser o gesto inútil.
( Em tempo: também penso que o filme de cowboy é um épico! )

Lado ausente

Sinto falta do meu corpo coberto de ramagens
de minha alma nua de fantasias vazias
de folhas envolventes num abraço cálido
falta de silêncio que o espírito inebria.

Então no mais fundo do coração escondo a infância
para que não fuja das horas presentes
e a imagem que ficou presa na retina
é a seta de saída no labirinto da mente.

Hoje as horas passam em doce melancollia
sonhando com a dança selvagem de "aquárius'
a solitária semente é o fruto da utopia.

E, na eternidade martirizante de um dia
rolam paixões, blues, ventres sem ovários
esculturas profanas entre paredes frias.



( Texto em versos acima escrito em 1981 )


Oz
22.11.2011

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Olvidar

Esperar uma noite
por um amor profano
um querer tamanho
a ausência, o açoite.

Viver a miragem
de um morrer estranho
sorvendo a lembrança
de um adeus à margem.

Olvidar è insano...

Oz

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Revisitando Sophia



Mais uma vez, em minha lembrança, mergulho inteiramente e experimento, extasiado, a completude, a beleza e a inocência primária dos humanos.

Penélope disse: " Sophia respira ". E penso que talvez Penélope habite, implícitamente, a "paisagem interna" que respira em Sophia; " paisagem interna ", bela expressão de J. Hart. E ambas existem, oásis no Saara do tuaregue que sou, ou que sonho ser, não sei...

Perenemente, o rio que desliza pela minha aldeia banha a mim e a ti Sophia, e, por estranho que pareça, no rio que desliza pela minha aldeia há diáfanos corais e neles mergulhamos serenamente sob a claridade lunar, sob o silêncio, além do caos..

Penélope, também acho que quase nunca podemos esperar compreensão ou entendimento do humano, prudente seria, para as horas tristes, tentar congelar o instante, torná-lo eterno no esquecimento. Talvez você concorde que o mundo, o mundo verdadeiro não esteja fora mas sim dentro, dentro de cada um, de cada ser que respira e que alguém, talvez por ser dotado de um dom, a linguagem, talvez possa ser chamado de poema, algo/alguém vivo e atuante no palco imensamente cáustico e humano..

" Tudo vale a pena
se a alma não é pequena "

&

Enquanto isso, na fonte misteriosa da tua existência, extraio, à distância, frutos seculares e os dôo em oferendas aos meus ancestrais bêbados...

Partilhar comigo Julho de 83 foi bonito e amistoso e quis partilhar contigo Eros e Thánatos no entanto percebi que só tinha uma vaga idéia, então..

que o espírito nos conduza a todos...



Oz
07.10.2011

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

caos

1
Habitante da terra onde pousa o relâmpago e de uma língua crepitante e sápida.
Teu coração: um charque pendurado num quarto oculto da lua.
Teu destino: um cavalo-marinho no deserto.

Teus desejos: orgasmos revestidos de conchas que se abrem para um campo inabitado, flamejante e explêndido.

Espírito de um xamã que tombou na última batalha no período glacial.
Um ritual milenar ressuscitará antigas canções e dirão: "pela vida nenhuma ousadia é fatal" .


2

Ao mandar cortar uma mangueira e um abacateiro aqui onde moro alguém logo me disse: " não faça isso, pois surgirá uma pereba dendulote "
No ar restou a muda censura dos pássaros ante um gesto prenhe de estilhaços.
Temos de recomeçar a semear e, no entanto, temos nos empenhado em cultivar desertos e depois quedamos em nos contemplar, bestificados, no espelho da aridez.

3

Penso na lendária luta que houve em 1974 na Àfrica, Zaire.
Muhammad Ali X George Foreman.
E depois se espalharia que a multidão gritava: " Ali, boma ye! Ali, boma ye, Ali " algo como " acabe com ele, Ali, acabe com ele!!! "
Eh, o tempo, amigo, o tempo...

4

" As jactâncias da heráldica,
a pompa do poder, e tudo que a beleza, tudo que a riqueza jamais deu esperam igualmente a hora inevitável: os caminhos da glória levam apenas à sepultura. "


" Elegia escrita no pátio de uma igreja do interior - Gray- nona estrofe "



Oz

terça-feira, 13 de setembro de 2011

dos dardos


Não sei se agora ou quando
talvez seja amanhã
nunca sabemos ao certo.

Com tantos desenganos
a vida e o seu afã
espelha os nossos gestos.

Se alguém atira um dardo
no corpo da razão
o toque é inaudível.

À todos os pecados
há a fonte do perdão...
e o tempo, indivisível.


Oz
13.09.2011

Non riesco dimenticare...

mais do mesmo ?!


Lá fora, a fúria insana
a sede, a dor das horas
Cá dentro, alcovas nuas
Pã junto à aurora...
Lá fora, os espartanos
e uma mente insone
cavalo ôco
Cá dentro, tantos troianos
de tudo um pouco...


&

Clarice partiu. ( já o disse antes ) eu sei..
Na sala paira docemente a sua tristeza gris e o riso singular.

Na penumbra da sala
no silêncio
no riso quase inaudível de Clarice há algo que lembra velhas catedrais em Praga..

Clarice saiu e permanece aqui em mim.
Enquanto isso Macabéa estende roupas no varal e cantarola uma cantiga de amor perdido.
Lá fora...

&

Não há nada além da eternidade púrpura.
Pára! Vê!
À sombra, teus fantasmas
a lembrança
a tarde rósea.
Nada além do teu silêncio
e os sinos que ecoam
e a eternidade...
À distância, um rumor de um rubro córrego
nos fundos de uma cabana inexistente.

È longa a espera do sol
e cortante a lâmina da memória.

Leve é o salto
fugaz a lembrança
longo e suave o esquecimento...



Oz
(um dia qualquer de 2005)

Alan, o garoto Nietzschiano; Wall, a face etílica do ser; Naná, a menina do quarto 15; Ramos, que sabia os caminhos ( e escaninhos); Plácido, da Tubaína entre tantos outros, como lhes devo...

às vezes


Às vezes a vejo
radiante mágica
às vezes a desejo
sob o sol, no cais
o teu corpo lúcido
sápido, faminto
fonte, labirinto
dos meus tantos ais...

Ninfa primitiva
às vezes a sinto
lenda, quase tímida
fonte de corais

invisível, cálida
tão quieta, pálida
doce absinto
branco vinho tinto...

Teus olhos fechados
tua indiferença
meu desejo alado
minha dor imensa...

Às vezes a vejo
estranho mosaico
um amor prosaico
tempos não normais...


Às vezes desperto
vendo um mundo insano
ninguém sabe ao certo
se somos "humanos"...



Oz
Maio 2011

terça-feira, 6 de setembro de 2011

pois ia sem àlibi


O jovem camponês jamais pôde partir no seu trem imaginário de desejo e fica e olha e visita, olhos fechados, velhos castelos da transivânia, ceia com czarinas russas, banha-se no Tejo.
O jovem camponês campeia palavras no vasto campo silencioso da manhã para ilustrar o seu cotidiano e aquecer a sua esperança irmã.

Camaleônicas palavras entregues numa luta infinda na fronteira dos lábios, de aljavas vestidas, quase humanas.
Camaleônicos risos.
Thánatos, Dionísio
Ventos, vendavais.
Linhas retilíneas
Curvas infinitas
em silêncio transam e sempre querem mais...

Pois ia
vender a morte calada no fundo da noite
por nada
sem norte
a caminho
alvo de olhares
mas não da sorte.
Pois ia num corredor infinito
abrindo portas
aos gritos.

O mundo, um carrinho de bebê desgovernado.

pois ia
um acidente na auto-estrada
onde ninguém bateu em nada.

Amar talvez o vôo de um pássaro empalhado
numa tarde de estiagem

O acaso me habita
inquilino a matar moscas
no silêncio de horas mistas.

Rir se mim mesmo ?!
não tenho graça
como diria o garoto
nem caramujo nem garça...

A cena é de um crime
e aqui estamos nós...
nosso álibi ?
não termos tido voz...

" feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu..."

Oz
( julho de 1996 )

terça-feira, 30 de agosto de 2011

de antigas fotografias...


Ao rever antigas fotografias, meu velho, lembrava-me da Antonia, da Lu, da Sandra, do "dono" da cidade de Machupichu, o pub, as chollitas, a vida que não cessa, a memória vaga, a mulher que passa...

"Aprender a fazer da queda um passo de dança, do medo uma escada, do sono uma ponte, da procura um encontro..."

Dia desses dizia ao Durelli de que modo e em que medida podíamos expandir a àrea de consciência, como poderíamos fazê-lo sem que isto explodisse o nosso cotidiano ( seguro, adorável e repleto de desertos ) ?!

Não! não há respostas definitivas, eu sei, mas que importa ?

Nos protegem velhas lacunas de um tempo sem memória, talvez sejamos Pilatos sem cristo...

Quando você se torna alvo de gestos inusitados você percebe que tais gestos se assemelham a pequenas pedras atiradas no oceâno por alguém que caminha pela orla: Ninguém nota e nem vê grandes mudanças na superfície mas a pedra e oceâno sabem...

E de repente leio em algum lugar uma estrofe, acho que de um moço chamado João Moura, é o seguinte:
" Por que temos que amar tanto as mulheres ?
e que não me venham chamar de misógino
este que, no máximo, é um misantropo.
( deseja estar sozinho, ma non troppo )


&&&


convite


Abraça-te a ti agora
esquece, ama, vive
a trilha, invisível
a noite não demora.

A volta, impossível
relógio ladra louco
a mente em vertigem.
jangada em mar revolto.

Teus pés vagam a esmo.
na tarde agonizante
assombra, a luz dos olhos.

Mergulha-te em ti mesmo
teu tempo, este instante,
teu corpo, um mar de abrolhos.


&


E quando ouvia , na madrugada, Armas químicas e poemas, do Engenheiros, de repente, tive a sensação de que tal canção tinha algo a ver com a Sofia e quis que ela estivesse alí a ouví-la também...


Até...

Oz
Agosto de 2011

sábado, 13 de agosto de 2011

Derrota



Oh, meu pequeno exército
eu, capitão sitiado
desertor de mim mesmo
busco, a esmo, o caminho de casa, mas é tarde, eu sei.

Meu exército de fuzis de cêra, o verão não tarda, lamento..
onde estão os nossos inimigos
talvez lá fora..
talvez cá dentro...

Nossa fortaleza à margem do mar morto foi incendiada
Nossa pavilhão capturado
Nosso soldo trocado por sete escravas brancas.

Meu coração em frangalhos
Ao relento, os companheiros mortos.

À distancia, uma obscura canção embala o sono espectral de moribundos prisioneiros.

Tempos sombrios
sentidos pétreos

Nas tendas, nas alcovas, nas ravinas, há lágrimas, há sêmem , há medo...

Estejamos vigilantes para que, ao amanhecer, não nos tornemos os mais novos inquilinos daquele cemitério inexistente e pagão.


Oz

Julho de 1996

de um retorno...








Hoje retornei ao sótão das sombras sem memórias. Seres dançantes em cores e fuligem. As sentinelas postadas no pórtico receberam -me em silêncio.


Um velho candieiro de cobre, com sua chama azulada, fazia tremeluzir os corpos da ninfas e de outros seres singulares. Adentrei o salão azul repleto de imagens seculares e à medida que me aproximava das mesmas estas se metamorfoseavam em pássaros metálicos e o ruído das suas asas na penumbra vibravam-me os tímpanos de modo insuportável. Afastei-me logo dalí.


Penetrei um segundo salão e neste uma bailarina flutuava sob uma densa névoa púrpura e ouvia-se ali o ressonar de um animal que dorme. Junto a uma fonte os meus fantasmas taciturnos passavam os seus dias numa partida de xadrez que não havia...

Na terceira escadaria em espiral vi-me num terceiro salão infinitamente branco e por ali um hipopótamo voava rumo ao horizonte púrpura, no seu dorso uma figura quasemente humana trazia nas mãos uma extensa lista de nomes e estes eram chamados e surgiam , de quando em vez, cabeças disformes e olhos mudamente mudos o que fazia estremecer o hipopótamo no seu vôo circundante e surgir lágrimas nos olhos do homem.


Quedei-me por um momento alí, anestesiado...

(...)


Afaquei em lágrimas arcanos e outros cantos, e meus olhos divisaram, ao longe, o semblante impávido de Deus...

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Goiânia, outubro de um ano qualquer...

" Nesta vida, morrer não é difícil, o difícil é a vida e o seu ofício ".
Maiacóvsky

W. dadas as circunstâncias, acredito que a epígrafe & epitáfio & aviso acima reflete muito bem aquilo que nos engarrancha no cérebro por algumas horas. Triste constatação.
Tudo bem, acredito poder extrair ainda desse bosque no qual habitamos algo que nos faça sorrir e gargalhar e continuar, mesmo que seja o pio lúgubre da acauã ( conhece esse pássaro, não é mesmo ? ).
W. o que faz um homem se levantar todos os dias, a cada manhã, por anos a fio, numa busca incerta, num mundo povoado por pessoas prontas a disparar suas certezas inquestionáveis?! Nós " máquinas desejantes " que somos, percorremos atalhos e labirintos em busca do verbo que nos lance no lago invisível e gélido e cáustico da vida imaginária e nos cobre cotidianamente o manto áspero do tempo inenarrável que não possibilita o retorno à fonte primária, esta face oposta da morte transeunte.
( continuo depois )

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Brincar de Drummondiar


( ou poema de meia alface )


Quando nasci um anjo bêbado
desses que bebem bem cedo
chegou e me disse: cara,
chega lá e escancara
não importa o preço da cana
que importa a sanha insana
com que muitos se atiram
à caça de ninharias.

Esse anjo estava "alto"
e chegou já soluçando
gostei do cara no ato
achei o maior barato...

E o anjo tinha uma capanga
e nela tinha de tudo
tabaco, torresmo, mé
rapadura com farinha
tinha DVD pirata
latinha de marmelada
tinha até meia furada
cachimbo, pente, rapé...

E o anjo se aboletou
numa cadeira quebrada
me dizendo meio grogue
quando tu ficar de porre
não ligue para a farofa
enfrente qualquer parada
estarei contigo e inté!

O anjo ao sair da sala
onde 'tava a manjedoura
tropeçou numa vassoura
deu com a testa no batente
mas disse: Adeus minha gente
depois a gente se fala!!!

E com passar do tempo
vi que o anjo tinha razão
pois eu vi que os "irmão"
vinham careca e banguela
nos olhos tinham remela
mas tinham bom coração.
Eu alí fiquei pensando
assim meio encabulado
e quando olhei para o lado
lá estava um carotinho
e um "biête" que dizia:
não bulam nesta branquinha
ela é para o mineirinho
lá do norte do Estado.

Eu dei logo uma tragada
a bicha desceu queimando
"figo" véi estrebuchando
mas num vomitei nem nada.
Preparei um tira-gosto
com uma asa de galinha
malagueta com farinha
nem quis saber de almôço
fiquei alí matutando
eu não sei como é que pode
eu ser assim tão sortudo
logo eu um cabeçudo
mas eu num rezei nem nada...

Mundo véio foi rodando
nas patas do pangaré
fui adquirindo fé
nas coincidências da vida
vieram os contratempos
já dormi muito ao relento
uma dona me deu rebentos
e à alegria dei guarida!

Dia desses: Deus, obrigado!
por este bom camarada
que me ensinou que no mundo
estamos numa jangada
e que o rio é muito fundo
que choramingar é nada
tem que é dar muita braçada...
bote umas duas na cabeça
das desilusões esqueça
faz por onde tu mereça
arrume uma namorada,
uma moleca faceira
faz o vivente gemer
faz o bruto estremeçer
bispo plantar bananeira
ricaço dormir na esteira,
viver sem eira nem beira
às vezes, fazer besteira,
certo é "mió" viver.

Cai logo na capoeira
não deixa cair o pano!
sem temer os desenganos
Construa sua jornada!



(Aos meus velhos companheiros de estrada & de copo...)


Oz
14.05.2010

sexta-feira, 3 de junho de 2011

No parapeito

Há alguém de pé no parapeito
alguém que talvez tenha o coração desfeito
que talvez esteja à espera de uma mão.

Ao redor, seres cambaleantes
produzindo melodias dissonantes
pisoteando o arbusto da razão.

Há alguém à beira de um abismo
alguém à espera de um sorriso
alguém que está fitando a escuridão.

Alguém está numa espiral de medo
alguém cuja existência é um segredo
no parapeito um pedido de atenção.



Oz
06.05.2011

( neste mesmo instante, quantos estarão no parapeito desse nostro mondo ? ... )

Canção triste para Etzel



Na sua busca incessante, Etzel se tornou a sombra e a luz, o vendaval e a calmaria, o labirinto do sono e a chave do longo despertar.

Seu olhar, um farol na noite incipiente.

Ele usa a sua mente afiada para rasgar a cortina que se instalou entre a sua fome primária e o seu alimento de pedra.

Semeador,dos seus lábios, por vezes, brotam frutos pantanosos.

Seus olhos se enchem de lágrimas mas ele avança com seus sapatos de aço, o retinir dos tacões a incomodar os ouvidos insensíveis de um mundo espectral.

O seu coração é árvore & animal & imensidão.

Oh, Etzel! Quão triste é o seu caminho, pesado o seu fardo e infrutífera a sua busca.

Etzel ruma ao desconhecido do homem e talvez não saiba que o seu destino já foi traçado pelo oráculo do vinho.

Ele percorre os muros de pedra da cidadela e na grama úmida onde pisa se desenha o lamento de um louco.

Ele busca na penumbra dos seus dias insones o bálsamo para um mundo ferido.


( Enquanto isso, Têmis permanece adormecida no coração do labirinto...).



Oz
08.05.2010

das cores dos dias

A quem interessar possa, após uma conversa com o velho Germano, ( lembra Durelli ? ) descobri as cores dos dias da semana. Aí vai:
Segunda: cinzenta, branca
Terça: amarela
Quarta: marrom
Quinta: verde
Sexta: cor-de-rosa
Sábado: azul
Domingo: dourado

ainda segundo ele, na Espanha há Domingos vermelhos...


Oz

Diagnóstico

O ato que exorciza a dor crua, cortante
é balançar com um blues endiabrado
é amar, desesperado, a bailarina azul
e abraçá-la de olhos fechados...
sentir seu corpo frio ou flamejante
nos lábios quentes e
desnorteados...

Oz

Cantiga para a moça desconhecida

Ante os meus olhos
um corpo singra
um mar de abrolhos

Sob os meus dedos
uma pele oculta
tantos segredos

Se o tempo é quando
minha mente aceita
um armistício

Se NÃO é o verbo
meu corpo cede
ao precipício

Se um corpo cálido
faz-se moldura
de um outro quadro

num movimento
sinto a tortura
&
no entanto aguardo.



Oz
03.06.2011 11:16 hs

( È bom lembrar que " paus e pedras podem ferir mas as palavras podem causar danos irreversíveis..." )

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Divagações à respeito de Sofia.


Sofia me fez voltar à superfície. Devo-lhe o regresso a este mundo gris e eterno e ainda que eu acredite em acaso algo me diz que os meus antípodas assim o quiseram.
Sofia existe apenas na minha imaginação de predador de sonhos e, mesmo assim, construo-a cotidianamente com os meus pensares tortos e os meus pincéis atômicos.
Sei-a estranhamente lúcida num universo envolto em sombras e setas e cálices e, por um mísero instante, tenho a ilusão de ter capturado o segredo da tua existência ímpar.
Ah, Sofia, estivesse eu à sombra dos teus cabelos revoltos, suave tempestade num ponto incerto do oceâno Atlântico, ilha formada de corais e habitada por amazonas em flôr...
Quisera eu vislumbrar os teus arcanos, constelações formadas de fulgurantes pássaros azuis...há uma paisagem em ti e nela se percebe toda a verdade e toda a beleza da lenda, rósea carne e inquieto espírito e surgem sensações a mim pouco conhecidas e que ainda não ouso nominar.

Leve é o teu passo!
Onírica a tua lembrança!
Difícil o saber, o sabor da tua história!

Em algum lugar, Sofia, num tempo muito distante alguém disse: " Sou feito da mesma matéria de que são feitos os sonhos " , sou tentado a imaginar que talvez tal afirmação talvez se aplique a ti pois existes porque alguém a sonha e quando este alguém acorda só pode sentir que tu eras apenas parte de uma qrande fantasia noturna, mesmo assim este alguém insiste em fechar os olhos pois não mais consegue respirar sem a tua alucinante presença diáfana nesta noite ilusória que permeia perenemente o real, a vida e o sonho. (...)


Ozênio
01.06.2011 00:27 hs