quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

pequena canção do espelho





Naquele espelho busco
a minha silhueta
embora eu não espere
encontrar tal faceta.
Naquele espelho vejo
alguém que me acena
embora eu não consiga
vencer o meu dilema.
Naquele espelho sinto
a sombra do absurdo
e ela é o açoite
o meu brasão noturno.
Naquele espelho ouço
ruídos fantasmais
espelho-calabouço
metades desiguais.
Naquele espelho jaz
a imagem da razão
o mais recente tema
mordaz de uma canção.

Meu insano dilema
é uma faca afiada
e já não há mais nada
cavalos, rios, poemas.

Oz
10.12.2011

Rascunho nos escombros



Vejo tua face pacífica e adentro mansamente as paragens da tua beatitude.
(...)
O teu olhar pousado nos umbrais do outono.
os teus arcanos sob a face do lago sagrado.

Sei-a filha dileta da memória e do sonho, habitante da tenda do imaginário.
O teu corpo mirífico invade as fronteiras insones e luxuriantes da minha lembrança e estremeço ante o cálido contato dos teus seios nus.

Sinto a santidade inviolável da tua existência ímpar.

Verdade é afirmar que o teu hálito umedece os lábios ressequidos do homem.


Oz
28 de Abril de 2010

"_Não. Aúnica coisa a fazer é tocar um tango argentino."

Manuel Bandeira.

Quadro

Envolto em hera
coração & muro num quintal baldio
um templo em ruínas entre o silêncio e o frio
em meio à solidão reinante espera...

Oz

Narciso

Se quer de mim
mais que um pseudo-riso
desista!
Eu sou Narciso.

Oz

Escalpos

corpos sápidos
escalpos no cinturão do tempo
exalam o odor de campos de batalha
e trazem em si
moinhos de ventos
cervantes
e toques de mortalha.


Oz.

sábado, 10 de dezembro de 2011

De um sonho Dantesco

Na penumbra de garagens, em gabinetes assépticos, em lugares insuspeitos, CORRUPÇÃO. S.F. conceito abstrato, se metamorfoseava então num gigantesco inseto que atordoava, degenerava e aniquilava a todos. Com seus inúmeros tentáculos alcançava os mais diversos pontos da teia social, e corroía, envenenava, maculava tudo ao redor.

De difícil combate, seus modos sorrateiros o auxiliavam a passar despercebido, às vezes sob a aparência de um inocente gafanhoto azul.

Gigantesco inseto onívoro. Sutilmente adentrava o cotidiano de todos e sua presença nefasta feria de morte os sonhos infantes de tantos berçários.

E então, entre nós, o invisível, o onipresente, o imensurável inseto, com seus tons camaleônicos e traços levemente Kafkianos. Sua sombra disforme projetada sobre nossas amendrontadas consciências. Víamos, impotentes, nosso cotidiano se transformando num pântano miasmático e nele viscejando a peste multiforme.

Queríamos acordar sem nos depararmos com tal monstruosidade no espelho do quarto mas...Já não era mais possível saber se estávamos despertos ou se o que vivíamos era um sonho dantesco.


P.S. E, para o nosso completo desespero, as instituições da República se tornaram a meta comum a todos os Lucius Antonius Rufus Appius que por aqui pululam...


Oz

Alguem chamando longe...

No fundo as músicas são chamas ardentes
queimando lentamente a distância dos anos
e lavam as pupilas dos olhos; uma torrente
de sonhos flamejantes, de vestígios de antanho.

Mais que o desejo de estar viajando
nas ondas dos sons, na trilha da explosão,
È uma ordem transcendente: continuem buscando
penetrem as portas da percepção.

Ei, você! aproxime-se, venha ver de perto
a fonte doar a vida, jorrar o despertar
ver surgir corpos sãs e mentes radiantes

Venha! vamos semear oásis no deserto
abrace o seu irmão, o ajude a caminhar
a ponte está próxima e a vida é um instante.

Oz
10 de Novembro de 1991

medos e certezas

A morte imune às incertezas levita suave na tarde leve.

Inatingível na insipidez a morte encanta em sua nudez.
A morte, em marte, como exilá-la ?!

Oh, morte, amar-te ?
como é possível sem desnudá-la...

Na tarde rósea, em sutil cambraia, aos transeuntes, a morte acena, a morte espaira...

Que a morte espere...
e o mito envolva a este servo que a busca, incerto, e a ti devolva todos os medos
e as certezas.


Oz
Janeiro de 2000