Epitáfio
Tô indo embora
mas até que não fui mal !
deixo aqui dois filhos maravilhosos;
deixo aqui um livro com versos tortos
e mais ainda,...
um limoeiro no quintal !!
Oz.
E, se te abraço, sinto que o amor existe.
não esse amor abstrato, tão em voga
não esse amor que parece estar de folga
quando a urgência do amor é tão premente.
Acho que o amor não acontece de repente
não é como a paixão, um dedo em riste.
Se me abraça, essa simples ação me outorga
a fé no amor. Estou presente.
Mas, quando você se afasta, eu volto à vida
outra vez no tabuleiro da razão que tanto louvam.
O homem é só.
Quando nascemos, começamos a partida
na qual já sabemos de antemão o lance derradeiro.
Retorno ao pó.
Oz
12. 04.23
(ou o desfecho trágico de tantas negativas)
João queria começar de novo mas Maria lhe dizia:
já é tarde joão. agora já não dá. agora não dá mais.
João queria viver poesia mas Maria lhe dizia:
agora já não dá, joão; a poesia morreu.
agora não dá mais.
joão queria comer um ovo mas maria lhe dizia:
agora já não dá joão, o ovo gorou
agora não dá mais...
Ah, maria! Ah maria!
João sempre quis visitar Paris mas mais uma vez maria lhe diz:
agora já não dá joão, agora não dá mais...
Paris nossa é aqui, se quiser, nade, e vá para Mongaguá...
João queria partir para longe mas Maria lhe dizia:
a canoa furou, joão, você não sabe nadar...
agora já não dá, joão, agora não dá mais...
joão já ia correr pra pular da ponte mas maria lhe diz:
a ponte? a enchente a levou, joão.
agora já não dá. agora não dá mais...
Nessa altura o João quis ir pra lua mas, então, a maria lhe diz:
agora já não dá, joão; o foguete partiu, lotado de lunáticos,
pode ir pro quintal, lá você pode ouvir, lá você pode uivar...
mas agora não dá...
então o João quis comer a Maria mas a maria lhe diz:
agora já não dá, joão, a maria está puta...
agora não dá mais...
Ah, maria! Ah, maria!
João comeu o ovo, joão bebeu cachaça, joão tomou um porre
chegou a maria: Tome cuidado joão, vai morrer de cirrose...
joão lhe devolveu no colo o ovo que comeu...aquilo que bebeu...
agora já não dá. agora não dá mais...
Nessa mesma tarde, tomado de dor, de raiva e de asco
catou a maria
e a jogou do penhasco...
agora já não dá, agora não dá mais...
Oz.
Quinta-feira. 20 de Janeiro. 2022.
Estranho como, de repente, um pequeno detalhe " cor de canela" foi como uma faísca capaz de incendiar meio canavial que são os meus pensamentos, e ainda hoje, aqui e ali, ainda sinto o calor que emana das cinzas que o vento norte não conseguiu levar...
Há muito, ele vagueava por um vale de sombras, o coração contrito, sob um sol frio e um vento cortante, seus pés congelavam ao contato com as pedras. Ele estava arfante, ele estava aflito.
Por muitas manhãs caminhou sem destino certo e tentava se lembrar de uma canção que ouvia na infância, mas nunca se lembrava, e só balbuciava; até que um dia, também numa manhã, na verdade, era quase meio-dia, pensou avistar ao longe o que parecia ser um jardim, e era, oculto entre as ruínas de um convento abandonado; ele não acreditou, ele ficou extasiado.
Havia ali caliandras, canela-de-ema, topete de cardeal, marizeiras; orquídeas brotavam em alguns troncos adormecidos por ali...à direita daquele jardim, num canto mais afastado, uma se destacava: uma flor-de-lis; enquanto ele a admirava, as nuvens se abriram e o sol se tornou mais brilhante sobre ele e sobre aquele antigo convento e então se desenhou na sua memória aquela antiga canção e o seu coração se alegrou.
Sentiu que algo que desconhecia o levara até ali. Até a sua flor-de-liz...
Oz
15.07.2021
O mais assustador é a falta de sentido
a indiferença, o vazio interior, o inimigo
o chamado inaudível, interrompido.
O verão do isolamento é frio e denso
a sombra diz: aqui estou e vos protejo.
A presença do invisível é algo intenso.
A assembleia quedou-se, inerte, muda
o equilíbrio entre a dor e o desejo
desinstalou-se; um hiato imenso.
Não há mais " meu irmão", " meu endereço"
Não há mais " meu reino"; todos despidos
Vontade, Fé, Razão; meros adereços.
Oz
15.07.2021
Um poema me veio
eu não tinha caneta
uma ideia me tocou
e eu, maneta.
uma ideia fugaz, tão sutil
e busquei abracá-la
ela sorriu pra mim
e fugiu.
Onde ela foi parar ?
onde ela foi parar ?
Uma ideia tão linda, envolvente
numa cabeça má, decadente.
E assim, distraído, eu andei
e entrei num boteco qualquer
e pedi um conhaque e tomei
e me vi no espelho
e me vi tão vermelho
e saí para a rua
prossegui no meu auto de fé.
onde ela foi parar ?
onde ela foi parar ?
Wednesday. september 05. 2019
Oz.