sexta-feira, 3 de maio de 2013

Vista de uma sacada




O pintor daltônico envolto em sombras lúdicas tateava na diáfana parede dos tempos em busca de quadros flutuantes em faces fáceis, no tecer preciso dos aracnídeos, no invisível voo das aves.

Seus olhos projetavam pinceladas e lembranças em depósitos de cinzas e outros arcanos.
Um coração indigente quase que inerte num salão repleto de pálidos fantasmas.

Agora está morto na sala deserta.

Deuses palhaços leves coloridos
pássaros de plástico, tariscas e mistérios
sobrevoavam lindamente o quadro surreal
e eu assistia a tudo pela janela aberta.

Sou o menino da rua 1104
aquele da sacada marginal
o único cúmplice de um viver incauto e belo.

Daria a minha manhã mais bonita
pela certeza de ter apenas sonhado que o criador de voos vadios recolheu os pincéis
e partiu em silencio...

Agora está morto na sala deserta...


Oz
Set. 94

* Fato presenciado pelo autor quando criança em B.H

brincares




Um berro ganhou a rua

partiu do escuro do quarto
quarto crescente da lua

Um abraço, depois eu parto


Um beijo oculto na sua

pele quente, odor de relva
animal livre na selva
tentação: sua alma nua.

Um jogo: o verbo solto

transformado em nosso fardo
jangada num mar revolto...

de repente o louco dardo

desnudou o corpo envolto
desde então em ti me ardo...


Oz
Outubro de 98

Pacto com ela




Quero abraçar o verbo que desnude a morte
e caminhar com ele aprendendo a viver
e com ele criar caminhos multiformes
nos primeiros raios o início do ser.

 beijar a face da passagem ao  desconhecido
soprar nos seus ouvidos segredos de outros sonhos
o voo rasante das gaivotas na pele do oceano
o espocar das bombas nos tímpanos urbanos

conhecer um dia de forma transparente
o encanto de estar em companhia constante
e, a cada olhar, eu possa por  instantes
sentir a existência qual fogueira ardente.

Ao copular com a morte acender os sentidos
provar que a mesma é mais que um sol se pondo
senti - la um fruto desnudo
ser devorado pela ânsia de viver
abraçar a morte como se abraça a vida
um novo sincretismo, um novo amanhecer.


Desmitificar a dor da despedida e , nas estações de embarque, no último adeus, deixar cair no solo sementes do seu riso.


Oz
31.01.1991

sexta-feira, 26 de abril de 2013

arcadismo



Longos caminhos percorridos 

entre olhares, beijos e perdas
entre pássaros 
e jardins novos...

Um garoto chama por seu pai

uma menina chora na janela 
atrás da cortina
e espera...

dez anos se passaram 

longos anos
o garoto se torna homem
e, na janela, uma menina-mulher 
uma cortina
e o sol da tarde
espera...

Voa um pássaro

pousa no galho seco
no jardim
A casa no alto da montanha está silenciosa 
um trem passa barulhento
pessoas à janela do trem 
e a mulher à janela da casa 
espera.
Vinte anos se passaram
vinte anos...

o homem não mais chama por seu pai

tem os olhos fundos 
e observa o trem que se afasta  
e também  se afasta.
A mulher à janela é uma sombra imóvel 
e não mais chora
as lágrimas secaram 
como as árvores.

trinta anos se passaram 

trinta anos 
quantos trens passaram por ali?
quantos pássaros?
quantas tardes à espera?
Um cadáver à janela
sobre o assoalho empoeirado da casa 
a cortina balança suavemente
na suave brisa da tarde.
Um sino soa à distância 
tangido talvês pelo vento forte das planícies 
talvés anunciando novas tardes
Um trem passa 
seu apito monótono corta o silêncio dos dias...

Quarenta anos se passaram 

não há mais trem 
e nem pessoas à janela 
e nem pássaros 
e nem homem 
e a casa é so escombros
e nem nada...


Oz
94 

                               

sexta-feira, 19 de abril de 2013

E...




Mudou em mim o meu pensar em ti

prisioneiro de um desejo intenso e insano
habitante flutuante do devir...


Oz

quinta-feira, 21 de março de 2013

Por que não estás por perto?!



Tamanha a sede
e o poço, inexistente
Tamanho frio
teu corpo quente ausente
o corpo louco
envolto em tempestasde
te quero amor
me quer só amizade
a sombra muda
é presa do silêncio
(...)






 

revisitando lápides

O que restou senão  o cortejo, o delírio e a dor calada?

No quarto, na penumbra, uma prostituta insone embala um filho louco.
Nos umbrais da noite indigesta se faz ouvir os uivos dos lunáticos.

Disforme presença se aproxima da cabana silenciosa; um cortejo espectral faz estremecer o hóspede na estrebaria.

Da desesperança, o nosso tempo parece mais uma metáfora sibilina.

                                               
                                                   (...)



E que haja uma luz redentora na noite densa do medo pois o  homem prossegue, imperturbável, sereno, no seu combate feroz e letal.

E que haja um abrigo  para aqueles que vagam no labirinto desses dias pétreos e um pequeno farol a guiar os pequenos que chegarem durante o inverno tempestuoso.

E que haja uma fogueira inextinguível e perene no meio do dia. 


Oz

março de 2013

Ao meio-dia


O que restou senão a lembrança, a febre insinuante e a solidão?!


Não restou mais nada a não ser o delírio, a sombra do cortejo

e a dor calada...

Oz
03:42 hs
22.12.2012

sábado, 6 de outubro de 2012

Horses




Cavalos de Craine
leveza em ondas
crinas deslizando sobre a areia
desenhando a loucura dos pincéis.

Oníricos cavalos de Netuno
alvos móveis
tropel uníssono sob as ondas
na distância secular
na noite eterna.


Oz

Mosaico




Nós, os filhos da máquina, vos saudamos!
hóspedes não convidados..

Meu coração, deserto sem tuaregues
Meu olhar, uma seta para nenhures.

Quem gostaria de ser beijado?
beijado por aquela que, sorrateiramente, nos segue pelas vielas da vida??

A hora se aproxima
os bárbaros estão à porta.

Dez mil escravas loucas não me bastariam
neste tempo enlouquecido de luxúria...

Ouçam, os bárbaros estão no jardim!!!

(...)

Não posso amar, não conheço o amor
Oh, princesa, minha heroína
quem daria conta de um coração tão vagabundo!?

Dois corpos dentro da noite
dentro da noite dois sonhos
intactos.

Duas mentes dentro da noite
dentro da noite o silêncio
o pacto.

A sobrevivência está ameaçada
Oh, príncipes
não nos afastemos
vamos de mãos dadas..

Vamos acender nosso toco de vela
pois faz escuro
temos de iluminar o mundo
e fazer brilhar os olhos daqueles que virão.

Talvez ainda encontremos a saída
A sobrevivência é uma ordem!

Oz
Junho de 2004


                     

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Irmão pequeno




Irmão pequeno
se imaginassem o universo que habita em nós
o tom do silêncio que despe a nossa voz.

Pequeno camaleão sobrevivente
num mundo em preto e branco e sem janelas
que nosso cotidiano seja uma aquarela
com as dores e as alegrias dessa gente.

Ah, irmão pequeno, estamos quase a sós
e não há quem possa ouvir a nossa voz.

Irmão pequeno camaleão
vem, sorri, canta, espera, sente
o sol que aquece a pele e doura o coração.

Irmão pequeno, não vês que é tempo?
tempo de adentrar o continente?

Irmão pequeno dos planaltos áridos
de riso pálido e destino incerto
sombra dançante e olhar deserto
irmão pequeno irmão de abraços cálidos.

Um dia nos encontraremos na encruzilhada
onde estaremos mudos
mais nada.




(...)

Como te aguardamos, meu jovem amigo, no porto com tochas e oferendas, mas a noite, amiga & traiçoeira, urdira outros caminhos para os teus passos, outros quadros para os teus olhos e um cortante pranto para tantos corações em júbilo.

O teu corpo agora jaz na terra fria mas sabemos que o teu espírito permanece nas alturas do universo do ser. Nos perguntamos quais desígnios fizeram surgir tanta desolação onde antes havia antes tanta alegria e luz...

Por onde andavas agora restam o retumbar dos teus passos tranquilos, a lembrança do teu riso contagiante e o exemplo do teu viver intenso e santo...

Oz
Outubro de 2012

À deriva: Do vale...

À deriva: Do vale... : Este é um vale situado em algum lugar no Peru . Passamos por ele quando retornávamos num Pullman ( uma espécie de tre...